Carta Aberta à comunidade educativa da Maia e à opinião pública

Carta Aberta à comunidade educativa da Maia e à opinião pública

Em defesa da Escola Pública e da verdade pedagógica: A propósito do silêncio da Vereadora da Educação da Maia face ao caos dos exames nacionais.

Depois do comunicado do Partido Socialista, sobre a mesma temática do polémico Editorial assinado por Emília Santos, diretora do jornal “Povo Livre”, órgão oficial do PSD, que o Jornal da Maia revelou, recebemos esta semana também uma Carta Aberta, alegadamente assinada por cerca de 100 pessoas e que tem como origem Rosa Amaral Pinheiro de Freitas, docente e signatária desta carta.

No teor da missiva endereçada a Emília Santos, enquanto vereadora da Educação da Câmara Municipal da Maia, os signatários dizem que «a função pública autárquica traz consigo um compromisso ético-deontológico e uma missão, em particular na área sensível e exigente da Educação: a defesa intransigente e incondicional das nossas escolas, dos nossos alunos, dos professores e das famílias que representamos», pelo que «é com profunda estupefação, e com o sentido de responsabilidade de quem vive diariamente o pulsar da comunidade educativa, que lemos o editorial recentemente assinado pela Sra. Vereadora, sob o título “A Responsabilidade De Governar Em Tempo De Mudança”», sendo que para os abaixo assinados «o que está em causa na sua tomada de posição não é uma divergência partidária menor, é um profundo e intolerável conflito de papéis institucionais».

Passam a explicar «quem tem o dever político de zelar pelos jovens e escolas da Maia não pode ignorar que é vereadora, mesmo quando assume o papel de diretora de um jornal partidário. Aplaudir o ministro da Educação nos termos e argumentos que utilizou nesse editorial, mostra-nos não a atitude de liderança de uma comunidade municipal educativa, mas a de subalternização do interesse local à conveniência central, quando nesse editorial refere expressões como “modernização do Estado”, “coragem reformista” e “resistência corporativa”. Importa, pois, repor a verdade dos factos, despindo a retórica partidária e olhando para o que se passou efetivamente no terreno, longe dos gabinetes ministeriais».

Seguidamente, em três pontos principais, definem os seus pontos de vista:
«1. O Mito da “Inovação Digital”

Convém esclarecer, com toda a frontalidade pedagógica, o que foi esta chamada “reforma digital”. Afinal, onde esteve a inovação estrutural? Os alunos continuaram a responder em suporte de papel, os exames continuaram a ser recolhidos em papel, para depois serem digitalizados e corrigidos, de forma fragmentada por itens, pelos classificadores. Manter o papel como documento de base de registo, submetê-lo a um processo logístico opaco, falível e tardio, a ponto de nem sequer o papel ser devolvido às escolas em condições normais de salvaguarda e transparência, não é modernizar: é criar uma fachada digital sobre uma burocracia ineficaz. Chamar a este baralhar e dar de novo uma “transformação estrutural” é insultar a inteligência de quem esteve nas escolas a gerir o pânico dos alunos e a exaustão dos professores.

2. A Inversão de Papéis e o Abandono da Maia

Numa das maiores crises organizacionais do sistema de exames das últimas décadas, com pautas adiadas, provas suspensas, alunos com notas inexplicavelmente despromovidas e famílias mergulhadas numa incerteza dramática quanto ao acesso ao Ensino Superior, esperava-se que a responsável municipal pela Educação na Maia erguesse a voz em defesa dos seus munícipes. Em vez disso, escolheu o silêncio absoluto sobre o concelho da Maia. No texto assinado pela Sra. Vereadora, o Governo é enaltecido, mas a palavra “Maia” não existe; as famílias e os estudantes aparecem apenas como adereços estatísticos de um sistema que apresentou falhas significativas, que colocam em causa a confiança em procedimentos que, ao longo de 30 anos, sempre foram fiáveis.

3. A Ofensa da “Resistência Corporativa”

Rotular de “resistência corporativa” o grito de alerta legítimo dos professores é de uma injustiça atroz. Os professores e os responsáveis escolares não resistem à inovação; resistem ao aventureirismo, ao improviso e ao desrespeito pelos direitos dos alunos. São estes mesmos profissionais que, sem rede e sem o apoio de quem os deveria tutelar, seguram a escola pública de pé.», enumeraram.

Argumentaram ainda que «uma vereadora da Educação não pode ser porta-voz de um Ministério contra a sua própria comunidade. A lealdade de quem serve o poder local deve prestar contas a quem estuda, trabalha e ensina no território municipal, e não aos estrategas partidários de Lisboa», justificando que «esta carta não se inscreve em correntes partidárias; escreve-se a tinta da exigência ética, da verdade pedagógica e do respeito por quem faz da escola o seu espaço de vida. Porque a Escola Pública merece mais do que a propaganda: exige verdade, respeito e quem a defenda, independentemente de quem governa», declaram a terminar.

A Carta «assinada por professores, educadores e cidadãos unidos na defesa intransigente da Escola Pública e da dignidade da comunidade educativa do Concelho da Maia», tem 102 assinaturas, tendo-nos sido solicitado a publicação na íntegra dos subscritores, a saber, conforme nos foi enviado, por ordem alfabética:

  1. Abílio Vassalo Ribeiro Calheiros
  2. Alexandra de Carvalho Pinto da Cruz
  3. Ana Alexandra Costa Rebelo Nogueira Almeida
  4. Ana Margarida da Silva Coelho
  5. Ana Ribeiro
  6. Ana Rocha
  7. Ana Sofia Pacheco
  8. Anabela de São José Rosa Carreira Gil
  9. Andreia Filipa Oliveira Puga
  10. Andreia Isabel Oliveira Gama
  11. Carla Isabel Lino Gonçalves Antunes
  12. Carla Isabel Moreira Silva
  13. Carla Salgado
  14. Carlos Manuel Castro Alves
  15. Carlos Miguel Mesquita Cabanal
  16. Catarina Pires
  17. Cátia Alexandra Vilaça Brito
  18. Cátia dos Reis Valente
  19. Célia Maria Campos Ribeiro
  20. Celine Isabel Monteiro Marcelino
  21. Cláudia da Silva Jorge
  22. Cláudia Esperanço
  23. Cristina de Freitas Teixeira de Sousa
  24. Cristina Isabel de Oliveira Gomes Ferreira
  25. Cristina Maria Costa Monteiro Fonseca
  26. Cristina Sofia da Gama Lourenço
  27. Daniela Alexandra David Ribeiro
  28. Daniela Patrícia Loureiro Matias
  29. Edgar Pinheiro de Castro Rocha
  30. Eduardo António Maia dos Santos Quelhas
  31. Ermelinda Maria Gregório S. Osório Neto
  32. Estela Regina dos Santos Alves
  33. Fernanda de Jesus de Sousa Caldeira
  34. Fernanda Maria Alegrete da Silva
  35. Filomena Margarida Gonçalves Alves Pinho
  36. Francisca Rocha
  37. Helena Alexandra Ramalho
  38. Helena Maria Cardoso Carvalho Borges
  39. Helena Maria Simões Antunes
  40. Helena Pacheco
  41. Hugo Pinho
  42. Isabel Judite S. Osório
  43. Isabel Regina de Faria R. M. Duarte
  44. Joana Andreia Gomes Fernandes
  45. Joana Patrícia Sousa Cardoso
  46. Jorge Bruno Coelho Mota
  47. Jorge Humberto Marques da Rocha Simões
  48. José Eduardo Lourenço Pascoal
  49. José Luís de Sousa Dias Cordeiro
  50. Juliana Patrícia Rodrigues Pinto da Costa
  51. Lara Formosinho
  52. Laura Cândida Moreira Martins Portela
  53. Leonarda Sofia Lopes da Silva Correia
  54. Leopoldina Assunção
  55. Manuel Firmino Simões de Almeida
  56. Manuela Maria Goiana Ferreira
  57. Margarida Maria Leal Araújo Alves Miranda
  58. Maria Alfredina Teixeira Mendes Braga
  59. Maria Cristina Tavares Bastos Gonçalves Martins
  60. Maria Elisabete Seabra Oliveira
  61. Maria Alice Costa de Sousa
  62. Maria Emília S. Cabral G. Fernandes
  63. Maria Filipe Cunha Ramos Gomes
  64. Maria Helena Araújo Portugal Alves
  65. Maria José Almeida
  66. Maria José Maia Fontes
  67. Maria Luísa da Costa Cruz
  68. Maria Manuela Ferreira Alves dos Reis
  69. Maria Margarida Portela
  70. Marília Fernanda Sá Marques Paiva
  71. Marinela dos Anjos Guimarães
  72. Mário Oliveira
  73. Marisa Morais
  74. Marta Alexandra Almeida Vergueiro
  75. Marta Filipa Teixeira Lopes
  76. Nuno António Torres Gomes
  77. Nuno Jorge Carvalho Félix Almeida
  78. Paula Alexandra Bessa Silvestre
  79. Paula Carvalho
  80. Paula Galvão
  81. Paulo Francisco Teixeira de Figueiredo Melo
  82. Pedro Capella G. Sant’Anna
  83. Raquel Sofia Moutinho Magalhães
  84. Rita Isabel Correia Dourado Coelho Gonçalves
  85. Rita Torres
  86. Rosa Amaral Pinheiro de Freitas
  87. Rui Filipe Ribeiro Magalhães
  88. Rui Josué Boucinha Torres Eusébio
  89. Sandra Raquel Machado Araújo
  90. Sara Alexandra Nunes Oliveira
  91. Sara de Noronha Nascimento Leão da Cunha Sottomayor
  92. Sara Isabel Ribeiro da Fonseca
  93. Sérgio Firmino
  94. Sílvia Ferreira Quintas
  95. Sílvia Guedes
  96. Silvina Amélia Monteiro Pais
  97. Sofia Camarinha Carvalho Martins Fradinho
  98. Sofia Cláudia Barros de Freitas
  99. Sónia Teresa Oliveira Lopes
  100. Susana Abigaíl Monteiro de Serpa Bulcão
  101. Teresa Margarida Gomes Pinto
  102. Teresinha Teixeira dos Santos

Emília Santos responde

O jornal da Maia solicitou saber a Emília Santos, se tinha rececionado esta missiva, tendo-nos sido confirmada sua receção «recebi com respeito a Carta Aberta que me foi dirigida. Numa sociedade democrática, o debate e a divergência são legítimos e fazem parte da construção de melhores políticas públicas», declarou a propósito.

Emília Santos, na qualidade de Vice-Presidente da Câmara Municipal da Maia e Vereadora da Educação, disse ainda que como vereadora da Educação, a minha prioridade foi, é e continuará a ser a comunidade educativa da Maia. Os alunos, as famílias, os professores e todos os profissionais das nossas escolas sabem que sempre encontraram na Câmara Municipal um parceiro presente, disponível e comprometido», mostrando-se compreensiva com «a inquietação causada pelos constrangimentos verificados no processo de exames nacionais. Sempre que os alunos são confrontados com incertezas num momento decisivo do seu percurso, é natural que exista preocupação e que sejam exigidas respostas. Essas respostas devem ser dadas pelas entidades responsáveis, com transparência, rigor e sentido de responsabilidade», disse.

Sobre o Editorial que outorgou disse «exprimir uma reflexão política sobre os desafios da governação e da modernização do Estado. Não diminui, nem nunca diminuirá, a minha independência enquanto autarca nem o compromisso que assumo diariamente com a defesa da Escola Pública e da comunidade educativa da Maia», acrescentando que acredita «numa Escola Pública exigente, inclusiva e capaz de evoluir. Mas acredito igualmente que qualquer mudança só faz sentido quando coloca os alunos no centro das decisões, respeita o trabalho dos professores e reforça a confiança das famílias».

A terminar Emília Santos diz que «não alimento polémicas nem procuro dividir a comunidade educativa. Prefiro continuar a fazer aquilo que sempre fiz: trabalhar com proximidade, ouvir quem está nas escolas e procurar soluções, porque é esse o dever de quem exerce funções públicas. Agradeço, pois, o empenho que todos os dias, docentes, não docentes e movimento parental dedicam à Educação na Maia», acrescentando que «a Educação merece menos ruído e mais compromisso. É esse compromisso que continuarei a honrar, todos os dias, ao serviço da Maia.», respondeu a terminar.

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