Abril não é passado. É responsabilidade.
Num mundo em escalada de conflitos e de deriva autoritária, celebrar a liberdade exige mais do que memória. Exige coragem política.
Passaram 52 anos desde o 25 de Abril de 1974. Mais de meio século desde que Portugal rompeu com o medo, com o silêncio e com a resignação. Mais de meio século desde que recuperámos aquilo que define uma sociedade digna: a liberdade. Mas, em 2026, celebrar Abril já não é apenas olhar para trás. É, cada vez mais, saber olhar para o mundo e reconhecer o quão frágil continua a ser o que julgávamos garantido.
A liberdade sob cerco
A guerra voltou à Europa com a invasão da Ucrânia pela Rússia, uma agressão justificada com argumentos que a história já nos ensinou a reconhecer: proteger, libertar, corrigir. Na prática, o que vemos é a tentativa de submeter um povo livre pela força. No Médio Oriente, a escalada é igualmente evidente. O regime do Irão tem projetado influência por meio de forças aliadas na região, alimentando um ciclo persistente de instabilidade e violência que já ultrapassou o plano indireto, sendo assumido o apoio a grupos terroristas implantados nos Países vizinhos.
Hoje, assistimos a um confronto que envolve ataques militares diretos entre alguns Estados, com os Estados Unidos e Israel alinhados num mesmo eixo estratégico face ao Irão. Não se trata de uma guerra formal, mas também já não estamos apenas perante um conflito indireto. O que vemos é um confronto direto e aberto, ainda que limitado, sem declaração formal de guerra. É uma escalada real, com consequências concretas para vidas humanas, para a estabilidade internacional e, sobretudo, para a liberdade. Tal como na Ucrânia, há um padrão que não podemos ignorar: o uso de narrativas políticas para justificar o que, na essência, são limitações graves à liberdade individual. Discursos que falam em libertar, proteger ou defender são frequentemente usados para legitimar o controlo, a repressão e a violência. As autocracias são assim.
A democracia por cumprir
É precisamente por isso que o 25 de Abril continua tão atual. Abril ensinou-nos que a liberdade não é um dado adquirido. É uma conquista e, sobretudo, uma responsabilidade: a de não aceitar simplificações, de não ceder ao populismo, de defender princípios, mesmo quando isso é incómodo.
Portugal é hoje um país livre, mas isso não significa que a nossa democracia esteja concluída e amadurecida. Persistem fragilidades que limitam a sua qualidade e a sua representatividade, desde logo um sistema eleitoral que continua a deixar sem representação efetiva centenas de milhares de votos. Numa democracia madura, isto não pode ser encarado como normal e adequado. Cada voto deve contar. Cada cidadão deve sentir que a sua escolha tem impacto real no resultado eleitoral. Reformar o sistema eleitoral não é um detalhe técnico. É uma exigência e uma necessidade democrática.
A democracia começa perto
Mas há outra dimensão que não podemos ignorar: a proximidade. A democracia vive, ou falha, na relação entre quem decide e quem é afetado pelas decisões. É aqui que o poder local se torna decisivo.
Na Maia, como em qualquer município, governar não pode ser um exercício distante. Tem de ser próximo, transparente e orientado para resultados concretos. Tem necessariamente de ouvir, responder e respeitar. O poder deve estar ao serviço das pessoas. Não, o contrário. Essa é uma das bases do pensamento liberal: facilitar a vida de quem trabalha, empreende, investe e quer construir o seu futuro. Não criar obstáculos. Não complicar.
Cumprir Abril, hoje, é aplicar estes princípios no quotidiano: garantir que os jovens tenham condições de ficar e não sejam empurrados para fora do país; dar respostas concretas em habitação e mobilidade. A mobilidade não pode ser um entrave à liberdade de movimento e a habitação não pode ser um privilégio de poucos, mas uma possibilidade real para todos os jovens que aqui cresceram. É também assegurar serviços públicos eficientes, acessíveis e dignos, respeitar o dinheiro dos contribuintes e simplificar, em vez de burocratizar.
O compromisso de Abril
Mas cumprir Abril também é ter clareza moral. Num mundo em que regimes e atores políticos tentam justificar o injustificável, Portugal deve estar do lado certo da história: o lado da liberdade, do Estado de direito e da dignidade humana. Sem ambiguidades. Sem relativismos.
Abril não é neutro. Abril é a afirmação de que nenhum poder pode sobrepor-se à liberdade individual, de que nenhuma causa legitima a opressão e de que nenhuma narrativa substitui a realidade.
Por isso, celebrar o 25 de Abril em 2026 não é apenas recordar. É assumir um compromisso: com uma democracia mais representativa, mais próxima, mais exigente, mais livre. Porque a liberdade não é um ponto de chegada. É um caminho. E esse caminho faz-se todos os dias, nas escolhas políticas, nas instituições e na forma como olhamos para o mundo.
Portugal pode decidir melhor. A Maia pode decidir melhor. E esse continua a ser o verdadeiro desafio de Abril: decidir melhor, todos os dias.
António Fonseca
Coordenador da Iniciativa Liberal Maia


