Gripe, magia e um SNS de “Faz de conta”!
Opinião de Ricardo Oliveira
– Médico especialista em Medicina Geral e Familiar;
– Docente Universitário;
– Pós-graduado em Acupuntura Médica Contemporânea;
– Mestre em Engenharia Biomédica, FEUP
– Lic. Neurofisologia, IPP;
A Gripe chegou, e, caramba, que entrada! Não veio só com o frio do Inverno; trouxe um estrondo político, um drama humano e, acima de tudo, uma prova gigante da desorientação que se instalou no nosso Ministério da Saúde.
Andamos nisto há semanas! “Faltam vacinas”, dizem, mas depois desmentem “afinal, há que chegue”; uma outra versão é lançada “afinal, a vacina que temos não cobre a estirpe que anda por aí… mas, bom, vá vacinar-se na mesma”. Como médico e cidadão preocupado, sinceramente, com este coro de contradições de quem devia estar a orientar e dar o exemplo, fico sem saber se me ria ou se chore. Pelo que observamos, parece que a única coisa certa que nos é dada, é mesmo a confusão.
No meio deste nevoeiro, temos uma entidade que, francamente, parece andar à deriva: a Direção Executiva (DE) do SNS. Desde que Fernando Araújo a criou, tenho a sensação de que a própria DE está gripada, mas de uma forma muito mais grave. Sofrem de desânimo, uma incapacidade estranha para trabalhar, e até alucinações… sim, alucinações! Insistem em ver um Serviço Nacional de Saúde cor-de-rosa que, desculpem lá, nós, no terreno, não vislumbramos.
Mas… o nosso Ministério da Saúde… ah, esse sim, definitivamente parece ter-se mudado para Hogwarts, aquela escola de magia do Harry Potter. Com uma varinha de condão, conseguem fazer desaparecer os médicos Tarefeiros… só que, na verdade, transformam-nos com um belo toque de magia. Aos Tarefeiros, pagam mais do triplo do que a colegas do quadro da ULS (unidade Local de Saúde), ou seja, uma injustiça e uma desmotivação extra para permanecer no SNS!
Fico a pensar na lógica disto, na loucura dos números: aumentar o tempo de abertura… para quê? Ainda no último domingo e feriado, assistimos a urgências cirúrgicas completamente fechadas e, ao mesmo tempo, atendimentos complementares literalmente às moscas. Às moscas, percebem?
Aqueles espaços que antes da Linha SNS 24 viam facilmente 120 pessoas por dia, agora, na melhor das hipóteses, vêm 20 e estou apenas a falar de atendimentos complementares pequenos… imagine-se nos grandes!
Vemo-nos de braços cruzados, sem poder fazer mais. A linha não encaminha, não funciona como devia. Afinal, a Linha é para aliviar as urgências, ou é para nos cortar o acesso ao SNS de vez?
Sabem, lá pelos países nórdicos, já entenderam o essencial: quem só percebe de números, não percebe de pessoas, e muito menos de Saúde. É por isso que escolhem gente com formação em Ciências Humanas para estes cargos de topo. Pessoas que sabem interagir com o que nós, os profissionais, os doentes, precisamos, em vez de ficarem obcecados com o que as folhas de cálculo ditam a partir de um qualquer gabinete de Lisboa.
Qual é o custo real para a sociedade e para uma empresa quando um trabalhador fica de baixa por uma gestão falhada, seja por uma gripe mal curada ou por algo mais grave? As contas do papel são cegas à realidade da vida. Há necessidade de uma simples contabilização de custos indiretos, que é preciso levar em conta, da mesma forma que o fazem para medir o impacto de uma qualquer iniciativa publicitária na Economia local como as atrações natalícias.
A solução, para mim, está perto, está dentro de porta, como cá na Maia.
O nosso Município pode e deve puxar os cordéis da responsabilidade para si, em conjunto com as ULS locais. Não podíamos nós organizar uma resposta de Inverno, bonificando os profissionais (do quadro e os outros) que queiram ajudar a comunidade? Criar um espaço (há tantos que podiam servir!) onde os médicos, auxiliares, TSDT, enfermeiros ou outros profissionais fossem convidados a trabalhar com um prémio pago pela Câmara.
É que a saúde não pode ser só tijolo e betão. Tem de ter alma e coração.
Será que uma ideia tão simples, mas sobretudo tão humana, seja demasiado onerosa de pedir a um Ministério que parece viver num castelo de magia?
Bem-vindos(as) a Hogwarts, ao mundo do faz de conta!


