Resposta habitacional temporária para pessoas em situação de sem-abrigo
A porta estava entreaberta. Lá dentro, a televisão ligada e várias pessoas sentadas no sofá a conversar. O ambiente era descontraído, com risos e algum divertimento entre todos. Entre cumprimentos e conversas, era evidente a proximidade entre quem ali vive.
Foi neste cenário que conhecemos um dos apartamentos do projeto “Aqui Vives Tu” na freguesia do Castêlo da Maia. O projeto tem cerca de um ano e é uma iniciativa da associação “Trata-me Por Tu” em parceria com a Câmara Municipal da Maia através da empresa Espaço Municipal EM, e o financiamento da Segurança Social. Uma resposta habitacional temporária para pessoas em situação de sem-abrigo ou em carência habitacional no concelho da Maia.
Cada casa acolhe até cinco residentes, com quartos individuais e espaços comuns, promovendo não só a autonomia, mas também convivência e apoio mútuo. As casas recebem maioritariamente pessoas com mais de 40 anos, embora possam acolher outras faixas etárias, consoante as situações sinalizadas.
Acompanhamento técnico e apoio social
O acompanhamento é feito por uma equipa técnica da associação e da SAAS da CM Maia (Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social), que trabalham diariamente no desenvolvimento da autonomia e bem-estar de cada pessoa. «Um sítio que tenham o seu quarto, a sua privacidade, a sua intimidade, um sítio para onde sabem que podem voltar todos os dias, e com essa segurança e essa noção que têm onde voltar, podem pensar no resto das esferas da vida: emprego, saúde, sociabilidade, estado emocional… a casa é a primeira necessidade», conta a coordenadora do projeto, Rita Moreira.
Segundo as técnicas responsáveis pelo projeto, os pedidos de acolhimento são recebidos por email, ou por telefone e podem receber sinalizações de vários locais como hospitais, outras associações e através da LNES (Linha de Emergência Social) e da própria Câmara da Maia. Explicam ainda que a sinalização é muitas vezes efetuada através da divulgação do projeto pelos próprios utentes.
O acompanhamento inclui apoio na organização da rotina, gestão doméstica, desenvolvimento de competências pessoais e sociais, cuidados de saúde e procura de trabalho e formações. «A nossa intervenção é muito olhar para a pessoa como um todo e para as suas necessidades», revela a coordenadora.
Cláudia Ribeiro, presidente e fundadora da associação “Trata-me Por Tu”, explica as necessidades de cada pessoa referindo os diferentes tipos de personalidades que acolhem «temos pessoas que sofreram de violência doméstica, pessoas que viveram literalmente na rua, pessoas que estavam em outras instituições e foram retiradas porque o prazo terminava… então as necessidades são um bocadinho diferentes… as necessidades que cada pessoa traz depende muito da sua história», acrescentando ainda «a expressão da Vice-presidente Emília Santos, inteligência emocional», destacando a importância da empatia e da sensibilidade para com estas pessoas.
Histórias de quem ali vive
Sentados à mesa da sala de jantar, dois dos residentes partilham as suas histórias. Entre pausas e olhares, falam de percursos marcados por dificuldades, mas também pela vontade de recomeçar.
Ana (nome fictício), com 54 anos, encontra-se atualmente desempregada e admite não ter capacidade para trabalhar. Durante o dia, frequenta um centro de dia, onde participa em várias atividades que ajudam a ocupar o tempo.
Separada, conta que hoje se preocupa mais consigo própria. Já tinha passado por outro apartamento, mas garante que não se sentia bem «aqui estou bem», afirma sem hesitações, referindo a relação com os colegas da casa e o ambiente que ali se vive. «Eu não tenho razão de queixa de nenhum deles. Eles podem ter razão de queixa de mim, mas deles eu não tenho».
Carlos (nome fictício), com 31 anos e natural da Ucrânia, ocupa o seu tempo livre entre o telemóvel e filmes, mas também com caminhadas e exercício ao ar livre. Descreve o passado como difícil «a minha vida era miserável», afirma, acrescentando que agora se sente melhor com a realidade que encontrou. Apesar de dizer que não tem amigos, mantém uma relação à distância com a namorada, através do telemóvel, com quem se encontra ocasionalmente.
Num dos quartos do apartamento, outra residente fala sobre o seu percurso. Vítima de violência doméstica, encontrou naquele espaço um refúgio. Enquanto mostra o seu quarto, partilha o seu percurso. Divorciou-se e trabalhava como empregada de limpeza para sustentar as filhas. Sem conseguir suportar os custos de uma casa, acabou por chegar ao projeto com o apoio das filhas.
Hoje os dias são diferentes. Está inscrita num centro comunitário, onde participa em diversas atividades como teatro, pintura, crochet e palavras cruzadas. Diz sentir-se bem no apartamento e destaca a relação com os colegas, embora admita que «os homens são mais complicados».
O maior objetivo é ter uma casa só sua, com mais privacidade, um processo que está a ser acompanhado pela associação «agora tenho uma coragem que achava que não tinha», afirma. Sem o controlo que antes sentia, deixa também uma mensagem a outras mulheres que enfrentam situações semelhantes «não desistam e tenham muita coragem para conseguir sair».
O apoio da equipa técnica, nomeadamente ao nível psicológico, tem sido fundamental assim como as pequenas rotinas do dia-a-dia destas pessoas, como passeios e momentos partilhados.
Bruna Pinto Lopes (jornalista)
Beatriz Pesqueira (trainee)


