Há muito que venho defendendo políticas de saúde diferentes das actuais. Defendo reformas estruturais que já desenvolvi exaustivamente noutros artigos de opinião, mas aquilo que mais tenho defendido são reformas sob a forma como se olha para a Saúde em Portugal.

O ciclo que temos vindo a viver no Sistema Nacional de Saúde (SNS) e na gestão da saúde em Portugal de forma mais ou menos generalizada, tem visado uma estratégia economicista com alvo no resultado económico de curto prazo. Estratégia que poderia (eventualmente) ser justificada com base nas dificuldades económicas que país vivia (vive?), fruto de um resgate custoso à grande maioria dos cidadãos nacionais e da súmula de uma tomada de decisões sobre alguns temas verdadeiramente catastrófica.

Esta estratégia económica tem primado por um dito ‘equilíbrio orçamental’ com cativações que ainda ninguém soube explicar de forma pormenorizada, podendo esquecer alguns dos valores tão necessários para quem lida com algo tão nobre e importante como a saúde dos outros.

Claro que esta discussão ética, moral e porque não deontológica nunca terá fim, com argumentos (quase) infinitos e repletos, na sua larga maioria, de razão.

Tal como também já tive a oportunidade de expor, os países nórdicos têm vindo a mudar os CEO, privilegiando aqueles cuja formação académica comtemplava um curso das áreas humanísticas. Mais recentemente, foi publicado um estudo que mostrou que para além dos resultados económicos e financeiros não terem sido inferiores, houve uma grande superioridade no que diz respeito à satisfação dos trabalhadores no seu local de trabalho.

Dito isto, foi com muito agrado que tive a oportunidade de ler um artigo num meio de comunicação social dos mais conceituados actualmente, onde pessoas com responsabilidades de gestão começam a pensar por ónus da avaliação do acto clinico nos resultados clínicos mensuráveis, e não só nos resultados monetários financeiros.

Esta simples decisão poderá permitir uma mudança de paradigma com o devido planeamento de prevenção, gestão e tratamento de doença com objectivos mais prolongados. As co morbilidades urgentes e emergentes faz sentido tratar no aqui e agora, mas as doenças crónicas como por exemplo a diabetes, a hipertensão, a insuficiência Cardíaca, a DPOC não faz sentido intervir numa perspectiva de prevenção e optimização da qualidade de vida a longo prazo. A longo prazo não iremos ter grandes reduções quer nos custos directos, quer nos indirectos?

Sim, porque tudo o que tratarmos e decidirmos hoje iremos ter o resultado mais tarde. “Empurrar com a barriga” nunca foi uma solução para nada.

Esperemos que haja coragem para a sua implementação, que haja coragem para a discussão e que estejamos todos preparados para debater aquilo que será melhor para as nossas gerações e para as vindouras.

A terminar não posso deixar de falar na campanha das Europeias. Lamento que havendo tanto projecto Europeu para se discutir, continue a ser privilegiado a política nacional. Espero que, mesmo assim, a grande derrotada dessa jornada eleitoral seja a abstenção.

 

Ricardo Filipe Oliveira,

Médico;
Doc. Universitário UP;
Lic Neurof. UP;
Mestre Eng. Biomédica FEUP,
Med.ricardofilipeoliveira@gmail.com
www.ricardofilipeoliveira.com
Não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.

Deixe uma resposta