Paula Teixeira reside há 53 anos em Águas Santas e viu a mãe morrer vítima de Covid-19. Acusa a Junta de Freguesia de impor a cremação. Maiata diz-se revoltada com a situação e garante fazer justiça por não ter cumprido o último desejo da mãe. Junta refuta acusações e presidente diz ter sido informado à posteriori.

Viu e falou com mãe pela última vez a 23 de março, altura em que esta foi internada no Hospital de São João com queixas de dores agudas na zona abdominal, associadas a graves problemas cardíacos.
O estado de saúde nenhuma ligação parecia ter com a Covid-19, até porque no dia seguinte testou negativo antes de ser transferida para o Santo António, hospital de residência. Permaneceu internada
até ao dia 5 de abril, data em que voltou a testar, desta vez positivo, ao novo coronavírus. Nove dias depois acabou por falecer, no hospital,vítima de Covid-19.

«Falei de imediato com a agência funerária para tratar do funeral da minha mãe. Temos um jazigo de família no cemitério de Águas Santas desde 1977, onde estão inumados o meu pai e os meus avós. O
desejo da minha mãe era ser enterrada naquele jazigo, ao lado deles», disse Paula Teixeira, ao Maia Hoje e Jornal da Maia.

Dirigiu-se à agência funerária que contactou a Junta de Freguesia na presença da queixosa. «Disseram que a única forma do corpo entrar no cemitério seria cremado. Falei com as minhas irmãs e, infelizmente, tivemos de cremar a minha mãe». Paula explicou ainda que teve que o fazer em Famalicão porque no Porto só conseguiria a cremação três dias depois.

Em conversa com o Maia Hoje e Jornal da Maia, explicou que «a minha mãe tinha-me dito tantas vezes que queria ser enterrada junto do meu pai e dos meus avós e que o que mais pedia era para não ser queimada, como ela dizia», disse Paula, ao acrescentar que «não cumpri o último desejo da minha mãe».

Ainda nesse dia, já depois de ter cremado a mãe, foi alertada por amigos e familiares de que a cremação não seria obrigatória. Consultou as recomendações lançadas pela Direção-Geral de Saúde (DGS)
e constatou que «a cremação era recomendada e não obrigatória». Paula ligou para várias juntas de freguesia dos municípios vizinhos e todas elas informaram que a cremação não era uma imposição.

No dia seguinte, «revoltada», dirigiu-se à Junta de Freguesia de Águas Santas que «só me deixou falar com o presidente quando “ameacei” com a comunicação social». Conseguiu chegar à fala com o
autarca Miguel Santos que lhe disse haver muitos infetados na Maia e que se tratava de uma questão de saúde pública. Paula Teixeira acredita que se tratou de «um erro crasso e não de excesso de zelo,
como disse o presidente».

A queixosa adiantou ao Maia Hoje e Jornal da Maia que já avançou com o pedido de Proteção Jurídica e garantiu que na próxima Assembleia de Freguesia irá expor o caso. Diz que o seu único desejo neste momento é «fazer justiça». «Acreditamos, de boa fé, no que nos disseram. Se soubesse o que sei hoje nunca tinha cremado a minha mãe».

«Estamos juridicamente tranquilos, mas moralmente, esta é uma situação que nos entristece»

Contactado pelo Maia Hoje e Jornal da Maia, Miguel Santos, presidente da Junta de Freguesia de Águas Santas, disse que no início desta pandemia, a Junta decidiu seguir as recomendações da DGS e passar esta  informação à população, no entanto, referiu tratar-se de «uma recomendação. Não é lei e jamais alguma funcionária poderia obrigar a cremação». O autarca acrescentou ainda que «a Junta de Freguesia nunca se negou a inumar o corpo. Se tivesse dado entrada um requerimento para inumação de cadáver, é óbvio que tínhamos que aceitar o pedido».

Miguel Santos diz ter sido abordado por Paula Teixeira, já o corpo tinha sido cremado. Acredita que poderá ter havido uma falha na comunicação e confessa que «num contexto telefónico com uma das
nossas funcionárias, poderá ter havido um excesso de zelo, mas nunca uma obrigação ou imposição, até porque não o podem fazer».

Questionado sobre o que irá fazer perante o desejo de Paula Teixeira de «fazer justiça», Miguel Santos respondeu ser «um direito que lhe assiste. Estamos juridicamente tranquilos, mas moralmente, esta é
uma situação que nos entristece». A terminar, o autarca referiu que «enquanto católico e filho de uma mãe já falecida, que também não gostava de cremações, só posso dizer que lamento imenso e que estou solidário com a dor da D. Ana Paula».

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